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domingo, 4 de janeiro de 2015

Onde vivem os monstros?

Em 2009, 2010 ou 2011, não estou muito certo (sei que era fevereiro), fui ao Shopping Ponteio para assistir a Onde Vivem os Monstros. Era o único lugar que, à época, estava ainda exibindo o filme - eu não sou cinemaníaco a ponto de querer ver filme em estreia, me é incômodo. A sala estava vazia, havia no total menos que 10 pessoas. E, se não me engano, era um dos últimos dias em cartaz.

Depois de um bom tempo, resolvi assistir ao filme novamente. Agora, era 2014. Assisti em casa mesmo - graças aos meus 10 mega liberados, consegui rapidamente baixar e vê-lo na minha slim TV de 39 polegadas. (Deixa eu parar com a zueira que o assunto é sério...)

Quando eu vi o filme no cinema, uma singela lágrima escorreu no meu rosto. Quando o revi, não cheguei a chorar, mas senti uma comoção muito forte e intensa.

O filme se passa em um contexto de conflitos. Um garoto que não consegue se enquadrar, se identificar numa dada realidade, acaba tendo acesso a uma realidade paralela. Sem spoilers, o que posso comentar é que o mundo do garoto é muito semelhante a cada um dos nossos mundos internos e interiores: bagunçado, contraditório e cheio de remendos.

Mas Onde Vivem os Monstros não é, pelo menos para mim, uma mensagem de esperança no sentido de "as coisas vão se ajustar". É uma mensagem que diz "cara, você tem um tanto de monstro aí dentro, convivendo com você; dê um jeito nisso se você quiser melhorar a sua vida". Os monstros são os conflitos, são os desejos, as querenças que nem sempre são realizadas (ou realizáveis). O filme, que não deixa de ter toques de surrealismo e realismo fantástico, acaba sendo mais real e realístico do que várias mensagens de autoajuda que estamos cansados de ver, ouvir, ler, assistir.

É um garoto que tem que lidar com o seu próprio mundo interior.
Um mundo interior que, diferentemente do que pensamos, é habitado.
Habitado por muita gente.
As nossas múltiplas e várias personalidades.
Ou máscaras.
Que se ajustam de acordo com o contexto, com a situação, com o momento.

São máscaras. Os monstros são as nossas máscaras. Uma hora somos bonzinhos, mauzinhos, inteligentes, burros, ignorantes, aprendizes, tudo no mesmo "eu", numa mesma mente.

Isso frita a gente de alguma forma, não?

O que nos deixa mais fritos não é a existência em si dos monstros, mas ter que encará-los e dizer "velho, para que tá chato". Para que tá chato. Eu não sou você. Eu não sou o outro. Eu sou além de tudo isso. Para de querer fazer me identificar com você. Para, monstrengo, tá chato.

(Agora, sim, um spoiler.)

Quando no final do filme o garoto sai da ilha onde estão os monstros e volta para casa, a relação com sua mãe melhora sensivelmente. Ele se sente mais disposto a ter um contato melhor com a sua mãe, que era a pedra de tropeço nessa história toda - sua mãe é separada do pai, começa a ter outros relacionamentos e (Édipo explica) começa a rolar um ciúme que desgasta tudo. Por isso ele foge de casa, chega à ilha onde estão todos esses monstrões (cada um de um jeito) e percebe que, assim como Dorothy disse, não há lugar como o nosso lar. E que lar é esse senão o nosso interior?

(Pronto. Passou o spoiler.)

Que formas podemos encontrar de nos descobrir, de nos reformar intimamente, de nos renovar a alma, o espírito, de não cair em contradições? Que formas há para que vejamos as pedras no caminho e que, ao percebê-las, não tropecemos novamente nelas?

Eu gosto muito desse filme que de infantil não tem nada - a não ser a própria interação do garoto com os (seus) monstros, que remete a algo como o que o Cristo uma vez falou: "deixai vir a mim as criancinhas". Não é no sentido da infantilização, mas no sentido de que as crianças são de uma tranquilidade e sinceridade que assusta qualquer adulto - e tais qualidades são deveras fundamentais para que se acesse o "Reino de Deus", ou o nosso próprio interior.



Felicidade nem sempre é o melhor caminho para ser feliz.
(Fala de Judith, uma das personagens.)

Eu tenho refletido um bocado sobre esse assunto de autoconhecimento. Onde Vivem os Monstros é um filme para se refletir nesse assunto. Meus monstros vivem no ego, no orgulho e na vaidade. São monstros que se reconhecem no público, que acham que estar em evidência é sinal de status, de notoriedade, de importância. Meus monstros adoram alimentar-me a fama, o "sucesso", o desejo de ter mais do que se consegue abraçar. Meus monstros são invejosos, porque não percebem que o fato de o outro ser melhor que eu é mérito do outro e que eu preciso melhorar naquilo que me compete e que me cabe - "Deus dá o frio conforme o cobertor", cantou Adoniram; o frio é justamente essa necessidade de reformulação de hábitos, de pensamentos, e tem que ter um mínimo de força para que, diante do frio, nos levantemos e busquemos (no armário ou no pé da cama) o cobertor para nos aquecer do tempo frio. Porque a gente pode, também, escolher sentir frio pelo resto da noite - se a gente sente aquela preguiça, o sono é maior, a gente nem sem mexe e prefere sentir frio que ter que levantar para nos agasalhar. Oras, quantos de nós já fizemos isso... Quantos já deixamos de lado um agasalho por mera preguiça... E preferimos sentir frio do que gastar energia para nos agasalhar.

Monstrinhos, eu sei que vocês estão aí. Eu sei que vocês querem aparecer, querem que eu os considere que vocês são eu. Podem parar onde vocês estão. Sei também que vocês não vão embora da noite pro dia e que vocês vão ficar me importunando. Tudo bem, podem importunar, mas eu também vou fazer a minha parte: quer falar, cês vão falar sozinhos!, porque eu não vou dar mais tanta trela a vocês.

De peito aberto e corpo pleno e inteiro, é preciso juntar desejo e vontade para ter essa transformação. Poxa vida, não é fácil, mas também não é impossível...

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

A posse da aposta

Foi com um misto de estranhamento e alegria que recebi uma ligação do cerimonial do Governo de Minas me convidando para assistir à posse do governador eleito Fernando Pimentel. A moça que conversou comigo queria confirmar a minha presença - a qual, claro, confirmei. Todos sabem das minhas críticas ao próprio Fernando, mas um momento como esse não poderia ser deixado de lado.

Minas Gerais foi governada por 12 anos pelo PSDB. A figura de Aécio Neves entrou para o governo em 2003, ficando até 2010 - quando se candidatou ao senado e ganhou a sua vaga; nesse mesmo ano, o falecido (porém honrado) Itamar Franco também foi eleito senador por Minas - só que Itamar faleceu e tristemente deixou seu suplente no lugar: Zezé "helipóptero" Perrella. Quando Aécio saiu, Antônio Anastasia (conhecido e reconhecido professor universitário e, segundo dizem, o verdadeiro responsável pelas ações governamentais que Aécio dizia serem dele) assumiu seu posto, perpetuando por mais quatro anos um ciclo de gestão tucana. Anastasia saiu ao senado, deixando Alberto Pinto Coelho (do aliado Partido Progressista - que, de tal, só tem mesmo o nome) no seu lugar nesse fim de mandato. Hoje, Pinto Coelho entregou a "faixa" para Pimentel.

Não posso dizer "minha nossa, que momento histórico esse!", mas eu também não posso dizer que essa posse e transferência de governo foram qualquer coisa. Porque não foram.

A entrada de Pimentel no Palácio da Liberdade, para a cerimônia de transferência do governo.
Quem assistiu à posse na Assembleia (transmitida pela Rede Minas) pôde minimamente perceber um, digamos, mal-estar por parte do atual presidente da casa em presidir a cerimônia. Dinis Pinheiro (PP, que pode ser tanto Partido Progressista como "Partido dos Pinheiros", já que sua família é uma oligarquia das mais atuantes principalmente na Região Metropolitana de Ibirité) de jeito nenhum iria se furtar a presidir a cerimônia, mas você percebia um certo... desgosto da parte dele em ter que realizar a posse do governador eleito - Dinis foi candidato a vice governador na chapa de Pimenta da Veiga, tucano rival de Pimentel nas eleições. Só lembrando que Pimentel venceu Pimenta com 52% dos votos e em primeiro turno. E só lembrando também que Pimenta estava afastado de Minas há 20 anos, morando em Goiás, e foi (no meu ponto de vista) o candidato mais despreparado dessa eleição. Mais que o Tarcísio Delgado.

Posse realizada, era a hora da transferência de governo do Alberto para o Fernando - e esse evento foi no Palácio da Liberdade. Sob um sol de rachar, acompanhei (de dentro do Palácio) a cerimônia. Na hora da troca, Pinto Coelho toma a palavra - quando o cerimonialista anunciou seu nome, o que se ouvia do lado de fora dos portões eram as mais sonoras vaias. Meio que ressentido, o ex-governador bradou, como suas primeiras palavras, "Viva a Democracia!". Bravo, Alberto. Bravo. Um tanto corajosa essa sua atitude de saudar a democracia. Mas, engraçado, seu predecessores não foram tão democráticos assim, não é? Não me alongarei nisso porque não é essa a proposta.

Tanto no discurso de posse quanto no de transferência, Pimentel reforçou que quer governar fora dos gabinetes e trazer o povão para dentro do governo. Dentro dos jardins do Palácio da Liberdade, eu vi várias pessoas. Poucos conhecidos, é claro, visto que não transito pela política partidária tão forte assim. (Impressionante: mesmo num partido que se diz de origem popular a elite branca e masculina domina...) Eu vi alguns rostos conhecidos e, ao cumprimentá-los, percebi que estão todos com a mesma expectativa que eu: de que esse governo novo possa ser uma boa aposta. Se Pimentel cumprir essa promessa de fazer uma abertura política e participativa do governo, do jeito que nós - população - desejarmos, será meio caminho andado. Se for possível que a participação popular - alijada pelos tucanos - seja o carro-chefe, pode não ser que Minas Gerais se torne um estado ímpar, mas pelo menos diferente do que está com certeza ficará.

(Não, gente, eu não tenho ilusões de que vai ser polianisticamente lindo o governo, mas é preciso haver demonstrações claras de vontade política para o início de uma abertura, de uma transformação. Não se muda nada da noite para o dia, o processo é lento, mas estamos apostando nesse processo; como sociedade civil, eu e as outras pessoas que no Palácio da Liberdade estivemos não estamos cegos com uma crença de que Pimentel vai transformar água em vinho. Tomara que, minimamente, a água não caia em volume morto.)

O governador eleito. O colar da inconfidência, na simbologia da transferência, significa que
- agora sim - ele é governador de fato.

Não se iluda e nem me iludo que a eleição de Fernando Pimentel é uma "virada contra o neoliberalismo", por exemplo (como disseram algumas pessoas) . Ilude-se quem sonha com isso, já que Pimentel é tido como "o mais tucano dos petistas". Todos estão confiando e desconfiando, porque o jogo político requer de nós muita atenção. Porque ninguém esqueceu do filhote de cruz-credo que ele deixou aqui em Belo Horizonte em 2008 - que "começa com M e termina com ERDA". Porque o secretário de Defesa Social que Pimentel colocou é uma pessoa que merece vigilância e, a priori, desconfiança. Não são poucos os motivos para isso, mas não quer dizer que vou ignorar a existência deles e fazer um apoio incondicional ou ver para todos esses defeitos e cagadas e largar para lá, sem deixar a minha contribuição. Por vários motivos, eu estou plenamente consciente que meu apoio ao atual governo é um apoio crítico: vamos em frente, mas olhando para os lados. Sabemos do potencial dessa virada. É a primeira legislatura do PT em Minas Gerais, com uma eleição ganha em primeiro turno - o simbolismo disso é interessante. Podemos enxergar uma mínima mudança "no estado do nosso Estado", como disse Pimentel na posse. Eu também entro no rolê de querer contribuir para isso. Mas, como se diz em Minas, "devagar com o andor que o santo é de barro". Vamos usar o nosso potencial desconfiativo e trabalhar. Não dá somente para ficarmos que nem hienas ("oh, céus, oh, vida").

Vou copiar aqui a fala do meu irmão Luciano Jorge, professor da rede estadual. Com ela, eu concluo meu raciocínio e convoco todo mundo que tiver a fim para somar (e petralhar).

Acho importante qualquer leitura crítica de QUALQUER movimento. Não sou iludido de querer um "We Are The World". Mas, assim, já não sou nenhum menino de achar que tá de boa sair no tapa com todo mundo por qualquer coisa. Eu às vezes prefiro o silêncio do que a tagarelice.  
Acho que às vezes, só às vezes, falta um pouquinho de tranquilidade pra refletir e conversar (ou as duas coisas juntas...) sobre as contradições que estão colocadas. Eu ainda prefiro o encontro com a parte que tá a fim de dialogar (sem carteirada, minimamente consciente de seu lugar na sociedade e tudo mais) do que ficar eternamente no meu monólogo chato, desmobilizador, que não caminha.
E mais: nesses momentos eu ando com muita preguiça dessa esquerda ortodoxa e penso que essa é pior do que certos "religiosos" (se bem que eles pensam na revolução como quem pensa na terra prometida... Eu penso que isso é um problema). Essa ortodoxia desmerece o que pret@s, mulheres, trans e outros tantos grupos andam construindo. 
No mais, notei nesse ano [de 2014] que posso aprender com pessoas completamente diferentes, de origens diferentes, que não precisam gritar aos quatro ventos o que fazem. Elas apenas fazem o que deve ser feito. E eu acho isso valoroso pra caramba. 
Só espero que em 2015 sejamos menos sectários, mais reflexivos, encarando nossas contradições, colocando-as na mesa, assumindo nossos erros e reconhecendo a postura do outro. E, obviamente, sem perder de vista contra quem lutamos. Espero maior espaço pra reflexão, menos pontos finais e mais pontos de interrogação.

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Recomeços, renascimentos

Mais um ano se finda e um novo período se inicia. Para todos nós, 2014 foi interessante, porém difícil. Pesado. Corrido. O ano passou por nós sem que conseguíssemos passar por ele. A cavalo, trotando rápido; parecia que era uma fera sem rédeas… Não podemos, entretanto, de todo reclamar.

Foi um ano de novas oportunidades, de novos aprendizados. De novas percepções da vida. Esse final de ano, que acabou acumulando muitas energias (positivas e negativas) explodiu numa catarse de emoções indefiníveis e não possíveis de ser mensuradas e qualificadas. Foi uma explosão, por assim dizer. E, já que estamos catando pouco a pouco os cacos para chegar 2015 menos quebrados, se me for possível eu gostaria de partilhar de uma reflexão.

Esse final de ano foi, pelo menos para mim, muito revelador. De que eu precisava mudar de atitude, ter mais firmeza na voz e no olhar, não (me) enganar e me esforçar para que houvesse mais amor, fraternidade e afeto. Houve muitas dessas missões com as quais falhei, feio e rude. Houve outras missões que consegui cumprir com zelo, gozo e entusiasmo até o fim, até dar cabo. No geral, foram experiências todas válidas, aprendizados inestimáveis, conhecimentos que não se adquirem apenas com o intelecto.

Foi numa das missões falhadas que uma fenda se abriu em mim. Uma fenda que, talvez, possa ser um portal para um novo tipo de conduta e de atitudes. Sim, meus queridos, eu fui uma pessoa contraditória e incoerente, que defendia um paradigma de vida e executava outro completamente diverso - quem, em vida, não se pegou numa contradição desse tipo? Magoei pessoas, apaguei histórias, tornei tudo mais turvo, obscuro e cinza. E quem que nunca cometeu uma patacoada dessas que atire a primeira pedra…

Desde então, surgiu uma (nova, mais uma) oportunidade de reflexão. “Poxa vida, será que é isso mesmo? Que sou assim e não vou mudar? O que será?” Várias foram as perguntas que passaram na minha cabeça desde então. Por que sou assim? Quando que comecei a agir assim? Qual é a minha questão? Por que eu sou esse problema?

Nesse tempo, algumas questões submergiram. Outras ainda estão no limbo do subconsciente.

Quando eu parti para uma tentativa sincera de autorreconhecimento, eu senti um pouco de medo. De me reconhecer naquela forma nefasta e não querer me identificar com aquilo. Mas um ponto a analisar: eu não sou a forma nefasta que se apresenta em público. É só mais uma de minhas muitas máscaras, que uso por ter medo de ser eu. Medo de ser eu. Medo de ser eu.

Medo de ser eu, um temor que me persegue desde muito tempo. Desde a infância, quando eu não podia ser o moleque chorão porque homem não chora, e eu já era “hominho”. Desde a adolescência, quando eu - preto, não oriundo de favela porém pobre, com dificuldade de dicção - procurava ter algo de relacionamento e todas as meninas que eu desejava me desdenhavam. O que concluí, então? Que o problema era eu. Euzinho. Eu não tinha como ser eu mesmo porque eu não sabia ser eu mesmo. Eu não sabia, apenas seguia um certo padrão - ou tentava seguir; pelo menos no Colégio, até a sétima/oitava série (8º e 9º ano atuais do Ensino Fundamental), havia um desejo pela imitação, pela cópia de quem parecia que “dava certo” lá. Quem eram os “tops”; quem ficava com todas as gurias; quem ia nas festas; quem era popular e reconhecido nos corredores como “os caras”. Uma mímese, uma tentativa de imitação barata de quem, hoje reconheço, não cabia e nem valia a pena imitar. (Contemporâneos meus de Colégio entenderão isso.)

Havia um pequeno nicho de identidade em mim, mas não se sobressaía. Eu ainda sentia um pouco daquela opressão de querer ser igual aos outros, mesmo que isso me anulasse. Mesmo que isso gerasse um apagamento do meu jeito de ser, de olhar, de falar. As reprimendas (inconscientes) foram muitas, e de alguma forma eu ainda (mesmo com 28 anos) as sinto. Percebo-as em vários momentos, em várias situações; mesmo assim, faltava um pouco mais de vontade e coragem para encará-las de frente. Uma encruzilhada se revelava para mim. Eu, que sempre estimulo os outros a tomar as rédeas das suas vidas; que sou deveras confidente e confiante em perceber as especificidades e necessidades dos outros; eu, que me ocupava mais dos outros que de mim, fui fraco em admitir que sou fraco. Uma carapuça de fortaleza eu coloquei, e usei como se fosse meu potencial energético de vitalidade. “Sou foda”, diria eu num momento de ego inflado. E não é que eu não seja bom naquilo que faço, mas um bom ego que se preza vai se alimentar de uma vaidade de querer ser visto e reconhecido e vai ofuscar outros elementos igualmente importantes no trato humano - como o amor.

Há várias, várias definições para essa palavra de quatro letras. Prefiro a definição que tem a ver com ter o outro (o alter) em mais alta conta, com o mais alto grau de afeto e sensibilidade; simples e suave coisa que nos amadurece, diria João Ricardo (Secos & Molhados). Vários nomes tentam defini-lo, várias pessoas tentam nominá-lo. Eu apenas sinto e não sei definir… Tem várias formas de mostrar amor, afeto, carinho e sentimentos afins - fico me perguntando, seriamente, qual deve ser a minha concepção de amor, visto que ando tão desastrado e atrapalhado na sua forma de demonstrar que… sei lá, rola um cansaço, mas não me faz desistir de encontrar um caminho.

(Não leve em conta o último trecho, pessoa; estou em um momento de chacoalhamento espiritual, logo algumas coisas aqui podem te soar confusas mesmo.)

O que fazer então diante de tal quadro internamente desesperador? O que fazer quando vem alguém e lhe arranca a máscara, jogando-a fora e encarando você como deveria acontecer? Há duas saídas: ou você busca de volta a máscara e a veste de novo ou esquece dela e tenta encarar a vida sem ela. Mais fácil a primeira alternativa (da qual eu várias vezes, preteritamente, já fiz uso), porque dá conforto e tranquilidade de você continuar do jeitinho que está, sem se preocupar com nada; você não tem que mudar nada porque você não aparenta nada para mudar, não é? Então, continuemos do jeito que está. Agora, optar pela segunda saída é difícil. Exige uma das coisas mais difíceis, que nem Freud consegue explicar tamanha dificuldade nisso: olhar para nós mesmos. (Brincadeira: com certeza Freud, Jung, Lacan e cia. têm, sim, explicações que nos revelam por que não conseguimos olhar para nós mesmos.)

Imagine-se numa casa. Do lado de fora toda pintada, arrumada e ajeitada. Quem passa do lado de fora deve pensar que aquele é um local muito agradável, gostoso de permanecer. Para você ter acesso à casa, você precisa ter acesso ao dono da casa - e, se do lado de fora ela parece um lugar fofo, por dentro ela pode parecer a casa da velha dos gatos dos Simpsons: uma zona. Sofá estragado, chão sujo, móveis empoeirados, lixo acumulado e uma pessoa maluca toda hora dizendo “num repara a bagunça, não”. (Quando a pessoa diz isso aí que mais reparamos, né?) Pode ser que a pessoa esteja mudando os móveis de lugar, fazendo um faxinão (daqueles que se faz no fim do ano), consertando algumas coisas dentro de casa para poder estar tudo organizado novamente. Isso é bom; ruim quando essa bagunça é permanente - desorienta qualquer um que chega para tomar pouso ou tomar um café. Faz com que o visitante se sinta deveras incomodado e parta sem ter mais previsão de volta.

Hoje, eu tenho que admitir que a minha “casa” está zoneada, mas que não ficará assim ad eternum. Tô precisando mudar algumas coisas de lugar, descartar os lixos sentimentais, abrir as janelas para deixar as luzes entrarem. Pode não parecer, minha gente, mas eu adoro receber visitas! Principalmente das pessoas que nos amam, que nos querem bem. Tem aquele negócio também que, quando você e a visita se tornam íntimos, você vai meio que se “descuidando” da casa, não tendo tanta preocupação assim de tê-la limpa, porque a visita vai entender que você esteve atarefado fora ou preocupado demais em recepcioná-la, daí nem lembrou de pelo menos passar um pano no chão… O acostumar-se a uma condição é pernicioso, porque pode fazer com que a casa vire uma eterna bagunça. As visitas podem se sentir intimidadas e não mais querer visitar sua humilde residência. Você diz que vai limpar a casa só para recebê-las; mas ao passar do tempo vai, novamente, deixando a casa em segundo plano, porque outros planos estão em primeiro lugar - as visitas, por exemplo; tanto de receber quanto de ir visitar.

Peguei essa metáfora para tentar evidenciar essa metamorfose que anda acontecendo comigo. Eu perdi uma visita (que estava quase fixando residência já), dessas que você adora receber em casa, porque meu cantinho tava uma confusão que só. E eu deixando de lado, deixando de lado, deixando de lado. E deixando de lado. Os entulhos foram se acumulando aos montes. A poeira foi só aumentando. Ficou intragável de receber as pessoas. Ficou impossível de essa visita entrar. Desde então, minha missão foi de olhar para a casa e dizer: “é hora de arrumar essa bagunça”.

Não hei de comentar aqui que passos dar para isso. Apenas estou arrumando. Haja força para poder começar. Olhar para si mesmo não é uma tarefa simples. Espero que 2015 seja o ano da casa arrumada. Que você possa vir me visitar, até mesmo fixar residência se quiser, com a residência transmutada em lar. Estarei inteiro para te receber.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Uma juventude, várias juventudes

Não é à toa que, atualmente, o termo "juventude" virou "juventudes", com S no final, pluralizando o termo. Porque, realmente há vários tipos de juventudes.

Há os jovens que estão na batalha do dia-a-dia, que acordam todos os dias e trabalham no sol, na chuva, no frio, no asfalto, no morro e garantem o mínimo da sobrevivência. E que, para além de garantir o próprio pão, batalham para conseguir o salve do resto da galera. Há uma pá de gente nessa condição que eu poderia citar, mas, para não fazer injustiça com quem eu porventura me esqueça, vou falar genericamente. São homens e mulheres, pretos, pardos, brancos, de origens diversas, que não estão meramente preocupados/as em guardar sardinha somente para a sua lata, mas de repartir o peixe entre todo mundo. É uma galera que visa pensar na coletividade, que está próximo de quem quer transformar para a melhor o mundo, a quebrada, a rua. Que quer promover a sociedade para o bem estar coletivo, não umbigoide. Se existe uma preocupação, é coletiva e repartida; é coletivizada e priorizada; ela critica, quer melhorar o mundo, é utópica e pragmática ao mesmo tempo.

Bloco das Pretas, coletivo de feministas negras de Belo Horizonte que usam o batuque
como denúncia ao racismo, ao machismo e à misoginia.

Já tem outros que se aproveitam do berço para arrotar competência. Boa parte da vida foi repleta de completude, de bonança e bem-aventurança (não apenas no sentido cristão, óbvio). Há a juventude que se cola no discurso de querer representar a todos e a todas, mas se incomoda de ter que sair do ar condicionado para ir à batalha. São jovens que fazem a agenda de outros jovens não na rua (como provoca o prof. Paulo Carrano), mas nos ares condicionados. São jovens que se vestem, ou melhor, se travestem de descolados, mas representam o duro conservadorismo de suas respectivas linhagens. A Turma do Chapéu é um notório exemplo disso. De uma juventude descolada de uma sensibilidade social, que vive numa bolha limpa e cheirosa, repleta de "sucesso" e meritocracia. De uma galera que galga altos postos nas instâncias políticas por causa de quens-indicam. De um povo, digo, de uma galera, melhor dizendo, de uma turma que esquece das demandas reais das juventude. Essa turma não me representa.

Gabriel Azevedo, outrora membro da JPSDB-BH, mas ainda da Turma do Chapéu.
Ao seu lado, o comentarista Reinaldo Azevedo.

Nada mais apropriado do que pluralizar o termo, passando de juventude para juventudes. Os chapeleiros são UMA juventude, nós somos OUTRAS juventudes. Eu tô do lado de cá, você tá de qual lado?

De que lado você vai sambar?


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Suscitando desamizades

Desamigar-se de alguém significa, pelo menos para mim, não ter mais uma relação de amizade e/ou companheirismo com alguém. É distanciar-se a ponto de tornar aquilo que era um sol aconchegante numa mera estrela situada a mil (ou milhões) de anos-luz.

E política é uma coisa que tem me feito ganhar desamigos.



Entendo que política, no senso comum, está no rol daquelas coisas que não se discute, como religião e futebol. E aceitamos essa determinação cultural numa boa, sem um questionamento mais válido, sem perguntar "de onde que veio isso?". A resposta pode estar num certo conformismo de não querer ser contrariado, de continuar sua vida de maneira confortável na sua apatia político-intelectual.

Não, isso não é necessariamente ruim. Enquanto brasileiros, nós mesmos sustentamos isso, acreditando que política, religião e futebol não podem ser discutidos saudavelmente numa roda de conversa. Porque as três coisas são alvo de passionalidades irracionais, que beiram às catarses agressivas e a desentendimentos que podem se tornar grosserias.

Bom, eu não tenho hábito de discutir a fé dos outros - no sentido estritamente religioso; eu tenho dificuldades em aceitar que existem pessoas que se submetem a religiões de matriz cristã - Catolicismo e Protestantismo, basicamente - a ponto de não enxergar outros pontos da curva. Sim, ainda me mantenho cristão, mas crítico; talvez haja um lócus no qual eu me encaixe quanto a isso, e talvez não, eu seja meramente mais um outsider da religião. Tenho dificuldades grandes em discutir certos temas com quem acredita que tudo - da morte à vida - só tem uma única explicação.

Do mesmo modo, eu não vou querer converter um torcedor atleticano em fiel seguidor do Cruzeiro Esporte Clube. Ou tornar um flamenguista botafoguense. Times são tanto escolhas quanto condições das nossas vidas - a priori, não se escolhe torcer por um time (eu disse A PRIORI), mas essa escolha pode se dar racionalmente depois, "virando a casaca" como se diz no popular. Já vi cruzeirense virar atleticano e atleticano virar cruzeirense, e isso faz parte da dinâmica de reconhecimento do que cada um curte, gosta, vibra.

Agora, quando o assunto é política, eu me encontro numa verdadeira encruzilhada. Por muito pouco, muito pouco mesmo - opiniões de quem não compartilha do mesmo espectro ideológico do meu -, eu fiz questão de agredir um colega meu de Colégio pelo simples fato (simples nem tanto, mas...) de não compactuar da minha opinião. Na verdade, não era o fato de ele não compactuar que mais me irritou, mas de querer "falar mais alto", ditar a sua opinião como a única alternativa de interpretação possível da realidade. Por outro quinhão menor, apontei o dedo na cara daqueles que eu considerei reacionários e coxinhas. Agredi verbalmente aqueles que não demonstravam a mínima abertura para o que eu estava dizendo. Moral da história: fiz desamizades.

E continuo fazendo essas desamizades por entender que não podemos ser Politics Free em um ano de tanta comoção eleitoral como 2014 - essa comoção já vinha desde 2013, naquelas inexplicáveis catarses de 50, 100, 800 mil pessoas nas ruas nas Jornadas de Junho. Diga-se de passagem, a intolerância e a indigestão aos coxinhas já surgira daquela época, quando fui elaborando a minha interpretação dos fatos à medida que eles iam acontecendo. Eu não tive condições de me distanciar do fato - coisa de Historicismo Analítico Puro - para poder avaliá-lo. Era ali e naquele momento. Acusei de coxinha quem ia de branco; rechaçava tentativas da galera fascistoide que queria um protesto sem bandeiras; questionava o povo (de) branco que pedia paz e uma manifestação "sem vandalismo" a despeito da barbarização que o Estado de Minas Gerais fazia por meio da sua Polícia Militar.

Tudo ao mesmo tempo e agora.

E não me aguento com o fato de ter que conviver neutro, sem poder externalizar as minhas crenças. Sem poder opinar e ouvir opiniões alheias. Talvez nem sejam as opiniões diversas da minha que me incomodam, mas uma postura arrogante de senhorio da verdade - que eu, inclusive, acabo encabeçando. Já tive diálogos deveras ricos com quem, mesmo em posição completamente contrária à minha, se sentia com tranquilidade para debater. Agora, tem outros que, na boa, dá vontade de bater ou exterminar. Sem meias palavras, galera, eu não estou aqui hoje querendo "ponderar".

Só que aí eu caio em um risco duplo: de me isolar e de anular o outro, de quem necessito para ser... eu. Só posso me reconhecer naquilo que o outro pode não ser. Pelo o que ele é, reconheço o que não sou - e é justamente isso o que tem que me balizar na hora de eu me encontrar enquanto discursante de um ponto de vista. Sem um outro, não tem eu - ah, bruta flor da alteridade...

Respeitar a alteridade, entretanto, não significa aceitar tudo do outro "de bom grado". Eu já fui um garoto submisso na infância, na adolescência e no início da juventude - e, por conta da trajetória que fui traçando na minha vida, hoje me dou conta que não preciso mais ficar neutro e inerte por conta de um acontecimento ou de uma discussão.

Mas como não ser neutro e inerte sem ser grosso e arrogante? Porque - podem perceber pelo tom da minha escrita - eu me encontro neste momento como uma pessoa irritadiça, arrogante e presunçosa. Sim, presunçosa, também. Que presume que o que o outro me traz só é bom se for bom para mim. Estou publicamente assumindo isso e ligando o foda-se se você vai achar isso bacana, simpático, desinteressante ou equivocado.

E peço sinceras desculpas àqueles que, por um motivo ou outro, não se sentem mais à vontade ao meu lado por causa desse meu tipo de postura. Peço a vocês um pouco de paciência, eu vou azeitando as engrenagens aos poucos. Como eu disse, já fui muito submisso em tempos de outrora - agora, o prato da balança está pendendo para o outro lado. Eu busco o equilíbrio, mas ele só vem se eu reconhecer que há em mim um desequilíbrio.

terça-feira, 26 de agosto de 2014

Quando a poesia se torna sinestésica

Sinestesia: é a relação de planos sensoriais diferentes: Por exemplo, o gosto com o cheiro, ou a visão com o tato. O termo é usado para descrever uma figura de linguagem e uma série de fenômenos provocados por uma condição neurológica.

Existem certas coisas no universo que não cabem numa explicação simples - seja racional ou espiritual. E nisso se inclui as diversas sensações que tenho ao ouvir o Clube da Esquina - volume 1. É, o disco com os dois guris na capa e que se transformou numa referência no mundo da música. Arte de pessoas de Minas.



Não vou me debruçar em falar das especificidades técnicas do disco, isso todo crítico já faz. O que quero dizer é de como esse disco aparece, desaparece e reaparece na minha playlist de maneiras tão espontâneas que sequer me dou conta se estou com ele ou não no celular, no MP4, no notebook ou em outra plataforma.

Criador de uma estética que até hoje é alvo de imitação de muitos artistas, até hoje não vi o Clube da Esquina ser atingido em seu nirvana máximo. Há cantores, cantoras, grupos e afins que chegam muito próximo - assim como aquele matemático maluco de um filme do Darren Aronofsky, que insiste em descobrir o último algarismo do numeral Pi. Inatingível, mas por que isso acontece?

Vou contar a experiência que tive hoje, muito simbólica e única - e não serve como explicação única para esse sentimento.

Saí do meu trabalho um tanto atrasado para outro compromisso. Atravessei a avenida em busca de uma música para poder aliviar o cansaço do dia - e, procurando por álbuns no celular, me vem o Clube da Esquina. "Tudo o que você podia ser" começa a tocar e aquela vontade de gritar surge na garganta. A música te chama a uma luta, consigo mesmo, de mudança de paradigmas - ou não. É uma canção que impulsiona, que te joga para frente. Assim como "San Vicente" (mais conhecida popularmente como Coração Americano), que é uma balada inabalável (com o perdão do trocadilho que o Skank usa em uma de suas músicas). Claro, "Nada será como antes" amanhã, a famosa música daqueles que desejam mudanças plenas, nada adiáveis - no máximo até o dia seguinte. Outra música impactante.

O engraçado é que, quando chegam as músicas mais lentas (Dos Cruces ou Cais, por exemplo), eu passo para a frente, buscando alguma coisa mais animada no random. São lindas, excepcionais, mas minha vibe hoje era de coisas mais animadinhas. Ao entrar na estação do metrô, tocava "Trem de Doido", uma guitarra low-fi sujona, estridente e belíssima. Coincidiu de eu estar ouvindo essa música quando o metrô chegou na plataforma. Achei isso de um simbolismo tão extremo e singelo que resolvi registrar isso aqui.

E por causa desse episódio, me detive mais em ir observando as outras músicas do disco e fui sentindo certa energia que não conseguia explicar senão pela definição de sinestesia que coloquei acima, neste post. Milton e Lô conseguiram (claro, junto com toda a patota do Santa Tereza) elaborar um sentimento que se configura pela mistura de sensações - que acaba sendo até meio surrealístico não no sentido da inexistência, mas no do Realismo Fantástico, do qual Murilo Rubião foi um deveras excelente herdeiro. Versos como "o meu pensamento tem a cor do seu vestido" são provas de que só é possível concretizar tais imagens se e somente se entrarmos em sintonia com o surreal, com um deslocamento do real palpável para um real onírico. "Um girassol da cor do seu cabelo" me parece muito isso - e me faz lembrar "A casa do girassol vermelho", que é justamente do Murilo Rubião.

Depois desse insight noturno, consigo enxergar - de maneira mais sinestésica e gostosa e menos técnica e crítica - essa obra do cancioneiro nacional. Não estou aqui para ser técnico, estou aqui meramente deixando meu coração bater sem medo.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Sobre elevadores e bananas

Demorei para reagir aos comentários sobre a campanha #somostodosmacacos. A bem da verdade, fiquei mais away que o Gil Bróder esse fim de semana e perdi o fio da meada. Mas, na noite de ontem, pude compreender o contexto da situação. Em suma: Daniel Alves, do Barcelona, jogando; jogam nele uma banana; ele vai e come a banana; a comoção nacional toma conta e uma campanha é lançada, dizendo que somos todos macacos. Aí, vêm as vozes da dissonância, dizendo que não somos macacos. Mas, peraí, qual é o motivo de toda essa confusão?

Pode ser que o ato do Daniel Alves de comer a banana tenha sido um protesto irônico. Tristeza mesmo foi o que se seguiu. Uma branquelada que nunca tomou geral na vida se "afirmando" enquanto macacos para contribuir na luta contra o racismo.

Como diria Renato Russo, "isso é uma contradição em termos".

Presta atenção, rapaziada e moçada. Jogar uma banana para alguém (geralmente negro) implica, histórica e culturalmente, atribuir à pessoa uma simbologia: de que aquela pessoa a quem você joga a banana é um... macaco. Sim, a gente tem na nossa cabeça, psicossocialmente falando, a imagem atribuída de que quem come banana é macaco. E que macaco, segundo as leis de Charles Darwin, são seres vivos anteriores a nós no processo evolutivo. Se são anteriores no processo evolutivo animal, significa dizer, por conseguinte, que macacos são "inferiores" aos seres humanos. Eis o primeiro erro (erro primário, eu diria) de promover uma campanha com as pessoas se atribuindo à imagem de macacos: elas se julgam inferiores, menores, "sem importância" dada a posição na qual o homem se coloca frente à escala evolutiva. É isso mesmo, não é? O homem não é o ser que, por ter consciência, se considera mais evoluído que os outros do reino Animalia?

Pois bem. Dado esse ponto, vamos ao segundo ponto - e talvez o mais invisível porque existe uma cegueira social (inconsciente, eu diria) que não consegue enxergar que... o racismo existe, oras! Sim, caríssimo Gigante Que Acordou Mas Voltou a Tirar a Soneca, essa coisa de discriminar o outro pela cor ainda existe na nossa Pindorama de Vera Cruz - por mais que Gilberto Freyre diga o contrário. Se eu estou, por exemplo, discursando num púlpito público e alguém me joga rosas, eu socialmente considero isso como um ato de carinho e afeto. Se me jogam um sapato, vou considerar que estou desagradando.

Se me jogam uma banana, estão me chamando de macaco. Se me chamam de macaco, significa dizer que me chamam, conforme a teoria acima exposta (do Darwin), de "raça inferior". Para se ter alguém que considere o outro "inferior", é necessário que haja alguém que se encontre em posição de "superioridade". Oras, inventamos, então, com dominantes e dominados, uma relação de poder! Veja bem! Daí, posso inferir, de acordo com o que eu expus aqui, que jogar uma banana é um ato racista. Porque considera o outro como macaco - e, para quem ainda não sabe, sempre se atribuiu ao negro (o dominado) pelo branco (o dominante) a figura do macaco. Do preto que parece macaco. Nunca vi nenhum neguinho branco (sem trocadilhos) sendo humilhado de macaco. Macaco, meus caros, é humilhação, não é brincadeira.

É humilhação porque é um tratamento que te deixa inferiorizado a outra pessoa. Não existe relação de equidade quando você coloca o outro como inferior. Quando você tem o dedo apontado e te chamam de toda a sorte de vexames, como macaco, cabelo-de arame, cabelo-duro - Itamar Assumpção tem uma ótima canção sobre essa questão. Por isso, onde que se chamar de macaco pode ser uma forma de combater o racismo, que se manifesta justamente em chamar o outro de macaco? É usar veneno para cuidar da moléstia causada pelo veneno. Uma retórica sem fundamento retórico. Pura coisa de miolo-mole, melhor dizendo.

Daí, refletindo sobre essa questão, vendo opiniões de vários amigos (que postaram textos pró e textos contra a campanha), me lembrei de uma questão que eu tenho observado com frequência e que traduz a persistência do racismo como elemento cultural brasileiro: o elevador.

As primeiras vezes que reparei nessa questão foi depois de ouvir "Identidade", esse pagode deveras excelente interpretado pelo Jorge Aragão. A questão do racismo é evidenciada na música a partir do momento que se coloca em questão (ou xeque) a existência do elevador de serviço e do elevador social. Os mais antigos que nos falam que os serviçais (faxineiros, empregadas, etc.) só podiam se utilizar do elevador de serviço para transitar nos prédios onde trabalhavam. (Em vários desses prédios ainda existe a Dependência Completa de Empregada - DCE, que nada mais é que a reprodução da senzala no século 21; mas isso fica para outro texto.) Fico pensando, fazendo essa relação entre elevadores e bananas, se usar o elevador de serviço aumenta em alguma coisa a significação da luta contra o racismo.

A música me faz lembrar da figura do Preto de Alma Branca, do capataz mulato que segue as ordens do feitor eurodescendente. E de como essa figura ainda é numerosamente grande na sociedade.

Se o preto de alma branca pra você
É o exemplo da dignidade
Não nos ajuda, só nos faz sofrer
Nem resgata nossa identidade

O feitor implementou a campanha #somostodosmacacos e o capataz seguiu obedientemente as ordens. Acho que, por uma inconsciência coletiva ou por uma cegueira social, faltou perceber que os principais promotores da campanha são pessoas que com toda a certeza não sofreram do racismo, da discriminação que pessoas como eu passam cotidianamente. E quem seguiu com a campanha não percebeu que se colocou numa posição inferior e, sim, de racismo. Não faz diferença o feitor pegar o elevador de serviço, mas será que dá na mesma se o capataz pegar o elevador social?

Pense nisso. E pense também que luta contra racismo se dá na subversão da ordem - não na conformação e aceitação dessa ordem. Aceitar e mostrar uma banana é engolir em seco esses quinhentos anos de perversão que é o Brasil.

Em tempo: o Idelber Avelar mandou avisar que tem blog novo na área, que vale a pena ser lido: o blog do Paulo Cezar Caju, um dos pretos mais aguerridos no futebol e, sim, tem histórico no combate à opressão. O blog chega num momento deveras importante no qual queremos mais Caju e menos Pelé.



sábado, 8 de março de 2014

Para onde Beagá se MOVE? - parte dois: a inauguração



Então vamos lá. Hoje, 8 de março, é o dia que o MOVE entrou em operação em BH. Como vocês podem ver pelas fotos, a Estação São Gabriel - a primeira a operar o sistema, as outras vão entrar em operação a partir de abril - está prontinha, prontinha, com toda a estrutura feita para receber os passageiros da Região Norte que queiram se deslocar para o Centro, para a Savassi ou para os Hospitais. Sim, porque está previsto, da São Gabriel, saírem ônibus do MOVE apenas para essas três regiões.









Enquanto eu procurava a plataforma para embarcar no ônibus parador (83P), um moço mais velho me interpelou. "Tá bonito isso daqui, né, rapaz?" Eu fui sincero: "Não achei não, moço. Num tá pronto ainda.." Ao que ele me replicou: "Pois é, né, mas tinha que inaugurar antes mesmo, o prefeito não pode inaugurar na eleição". Boa pontuação do seu moço.

Me dirijo então à plataforma do 83P e todo do ônibus. No interior, a Alterosa filmava a operação do motorista e os passageiros (Mãe, vou aparecer no SBT!). Ao meu lado, sentou um moço que é um dos guias da BHTRANS que têm por função orientar os passageiros. Perrguntei se havia um quadro de horários disponível para que pudéssemos ver os horários de partida. "Bom, nesse daqui ainda não tem, mas nos outros deve ter". Deve ter. Fiquei pensando nisso: nem quadro de horário tinha no coletivo e o ônibus já estava em plena rodagem.

Ao meu outro lado, tinha um estagiário da Prefeitura. Fiquei curioso, porque vi que o interior do MOVE é bem menor que os antigos carros articulados que as linhas de Venda NOva - 61, 62 e 64 - tinham antigamente. Perguntei quantos passageiros cabiam sentados. "Olha, no total cabem 130". "Sim, mas sentados cabem quantos?" "Ah, cabem uns quarenta passageiros sentados". Tive que me conter porque um busão daquele tamanho comportar somente 40 pessoas sentadas é muita pachorra para pouca competência. Então quer dizer que, no MOVE, dois terços das pessoas que o tomarem (num total de 130) viajarão em pé. Isso é conforto, Brasil?

Bom, é primeiro dia, né? Vamos ver como o barco anda.

sexta-feira, 7 de março de 2014

E para onde Beagá se MOVE?

É essa a pergunta que faço diante do falacioso mito do BRT-MOVE como salvação do transporte urbano em Belo Horizonte.

Há vários aspectos que eu poderia pegar aqui e discorrer sobre, mas vou me ater a um em especial que me deixou deveras incomodado: o fato de o princípio de funcionamento do MOVE não ser nada inédito.

A BHTRANS divulgou que o Move irá funcionar como ligação entre as estações-integração e as regiões Central e Hospitalar. No sábado, dia 8, três linhas começam a roda a partir da Estação São Gabriel - 83 Paradora, 83 Direta (que vão até o Centro) e 82 (que vai para os Hospitais).

Se você pegar o mapa de funcionamento do Move, vai ver claramente uma coisa: ele é unidirecional - só liga a estação-integração a uma região. O sistema não permite que haja comunicação inter-regional para além do que está proposto - quer um exemplo? Até agora eu não vi previsão de interligação entre estações-integração - entre São Gabriel e Pampulha, entre Pampulha e Vilarinho, entre Vilarinho e São Gabriel. E o que mais grita nos meus olhos: esse tipo de sistema já existe em Belo Horizonte desde a implementação das Estações BHBUS. Se você (diferentemente dos gestores e do presidente da BHTRANS, sr. Ramon César) anda de ônibus pela cidade, vai perceber uma grande semelhança entre o MOVE e o sistema atual vigente de conexão entre as BHBUS e as demais regiões da cidade.

O que 83P, 83D e 82 vão fazer, 61, 62, 63 e 64, na Estação Venda Nova, já fazem; 32, 33, 34 e 35, na Estação Barreiro, já fazem; 30, 3050, 3052 na Estação Diamante já fazem. A única coisa diferente é que os ônibus são articulados e possuem estações de transferência ao longo do caminho, em substituição aos tradicionais - porém não superados - pontos de ônibus.

Tem uma coisa diferente, sim: o MOVE custa 46 milhões de reais por metro.

E o doido do Márcio Lacerda já está pensando em expandir o sistema - que tem tudo para falhar. Porque é a reprodução pura e simples de algo que já existe, não é uma novidade. Lembro-me de 1998, quando houve a grande última mudança geral no transporte da cidade - com a criação das Linhas Perimetrais (de final 50 e de cor alaranjada), das Linhas Circulares/Alimentadoras regionais (de três números e amarelas) e com a mudança em grande parte da numeração das linhas antigas. Com três meses de antecedência, a BHTRANS teve a preocupação de mobilizar TODA A CIDADE para a grande mudança que ia acontecer.

Talvez seja esse o motivo de a BHTRANS e o SETRA, sindicato das empresas de ônibus, não terem se preocupado em comunicar com a cidade sobre o MOVE - ele não é nenhuma novidade mesmo...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

E o que o Natal quer dizer para mim?

Para mim, mesmo? Não tem significado. Melhor dizendo, existe um significado vazio, que não completa.

É fácil ser amistoso, ser amigo, leal e companheiro, amar a família, querer o bem a todos nessa época. Muito fácil ser coração aberto durante um dia. E essa sua humildade e benevolência de Madre Teresa está presente durante todo o ano?

Nada me aparece mais falso do que o famoso "espírito natalino". Então quer dizer que, durante 364 dias, eu posso foder com a sua vida, ser um mascarado que não te cumprimenta e, no Natal, te abraçar como se fosse seu melhor amigo íntimo? Amigo, na boa, vai te foder.

Leve com você esse "espírito natalino", que mais parece "espírito de porco". Coma seu peru, encha a sua boca de farofa, engula o seu vinho. Mas não venha vomitar tais impropérios e sandices na minha cara. Que eu não sou obrigado a compactuar com isso.

Natal é a minha época de fossa voluntária. Eu me permito, voluntariamente, a ficar deprimido. Tenho algumas razões que podem explicar isso, mas não vou enumerar tudo porque posso parecer prolixo. Mas são duas os principais motivos de eu condenar o Natal e considerá-lo a pior época para mim:

- É no Natal, uma época que deveria ser reflexiva e pensativa, que utilizamos das nossas cognições apenas para escolher o melhor presente ao nosso amigo oculto e/ou familiar. Os shoppings ficam insuportáveis, as ruas do Centro ficam intransitáveis, fica tudo uma correria descambada. E para que isso tudo? Porque não se pode passar o Natal "em branco". Ou seja, a representatividade do ato de dar um presente ultrapassa a necessidade da reflexão da data. Eu fico mais preocupado com o presente que vou dar que com a data em si. Eu preciso, dessa forma, alimentar o meu ego e dizer "olha, é o melhor presente que pude comprar para você", como se apenas a presença da pessoa já não fosse importante...

- E é falando em presença que entro na segunda razão de odiar Natal: família. Não, não odeio família, a questão é que não tenho convivência em família numerosa, com primos, tios, sobrinhos e etc., como acredito que grande parte de vocês têm. Meus parentes dificilmente saíam das casas deles, situadas a 200 km da minha cidade de nascimento, para me visitar independentemente da época. Posso contar nos dedos quais deles vieram quantas vezes aqui - e, em contraponto, a gente ia mais vezes vê-los do que eles iam nos ver. A balança acabava desequilibrada. Com isso, posso dizer com segurança que não tenho uma convivência familiar tal qual aqui estabelecida - tive, durante infância e adolescência, ausência de primos e tios. Ausência no sentido macro, de não poder contar com eles assim, rápido, como se fossem vizinhos ou integrantes da sua comunidade, do seu lote, do seu bairro. E Natal, geralmente, é coisa de família grande. Vejo as pessoas fazendo mil e um malabarismos para estar perto dos entes queridos nessa época... E eu fico indiferente a isso. Não me movo e não moverei para isso.

Por mim, poderíamos passar direto para o Ano Novo. Porque Réveillon, sim, é festa. É virada de mesa. É felicidade coletiva. É catarse coletiva. Natal, para mim, é algo tão sem graça que eu facilmente vivo sem. Não preciso de presente, não preciso de participar de amigos ocultos - participo mais por consideração aos amigos queridos que os articulam, mas não sinto nenhuma vontade de eu mesmo puxar algum -, não quero lembrar que essa data existe. Não quero. Já me basta toda a deturpação pela qual a data passou, não me obrigue a curtir algo que não quero. Se você gosta de Natal, fique à vontade para (de uma maneira verdadeira ou beirando à falsidade) postar as fotos da ceia, de você com seus "parentes queridos", com os "amigos queridos", com os "namorados queridos", com os "queridos" que você vive xingando e amolando durante o ano, mas não no Natal. Porque Natal é "amor", é "perdão", é "perdoar o que se fez durante o ano", é "rever os queridos", é "abraçar a todos". É, é sim. Eu sei que é. Tanto sei que não acredito nesse sentimentalismo todo. Pode me chamar de rude, de grosso, de insensível. Foda-se o que você acha, estou apenas sendo sincero.

Natal, para mim, é o ápice da hipocrisia à qual qualquer ser humano pode chegar.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Preparações para 2014

Acredito eu que esse será o primeiro de uma série de posts que irão premonitoriamente prever o futuro de 2014. Mas não é feitiçaria nem precisa da Mãe Dinah. Só dar uma olhada nas notícias que saem para podermos traçar, com uma margem de erro pequena, o que se pronunciará no próximo ano.

E a Folha já deu a primeira pista hoje, dia 5 de novembro de 2013. Isso, ainda estamos (este post foi escrito) em 2013, no final do ano de 2013, e já mostra o que grotescamente se pronuncia para o Ano do Brasil na Copa. Ou o contrário.

Se não, vejamos. Estou lá tranquilo, navegando pelo Facebook, quando a postagem abaixo me salta aos olhos. E fá-los arder.

De vândalo a stripper, conheça a vida do rapaz que supostamente perdeu tudo por causa dos protestos de junho de 2013. Hoje, no Globo Repórter.

Como diz um blog que eu costumava ler, não acredite em mim.

Não, gente, o problema não é o cara ter virado garçom e stripper (não necessariamente ao mesmo tempo, mas...). Cada um faz o que quer da vida. O que quero chamar a atenção é para o destaque que a Folha deu ao rapaz - que, não sei se vocês se lembram, foi aquele que apareceu em rede nacional, sozinho, depredando a fachada da Prefeitura de São Paulo. Esquisito porque esse tal Ramon é aquele cara que ficou SOZINHO quebrando a Prefeitura de SP, recebendo holofotes da mídia e sem QUALQUER intervenção policial. Entrou ao vivo na TV e etc. E ninguém da PM de SP interviu. Lembram agora de quem estou falando? Busquem na memória, o Complexo de Dori não pode agir tão forte assim no seu cerebelo.

Quem é de Comunicação sabe de um negócio chamado Semiótica, que eu gosto de chamar de "o estudo das entrelinhas". E recorrendo à Semiótica para perceber nuanças nessa matéria, uma das coisas que me saltam à vista é a foto usada na reportagem. Não é uma foto meramente ilustrativa, mas é produzida. Tem spots de luz ao fundo. Há uma iluminação de baixo para cima que revela o rosto de uma forma diferente. Fiquei me perguntando o porquê de tanta produção para uma foto sobre um rapaz que foi preso nas manifestações e que virou garçom.

Oras, tem muita gente (de black bloc a """""vândalo""""") que ficou na mesma situação de Pierre: foi preso, respondeu ou está respondendo inquérito e segue com a vida. Tem tantos outros """""vândalos"""""que foram presos aí e que não tem sequer um espaço, uma linha, nas grandiosas mídias para colocarem seus pontos de vista. O tal Pierre Ramon teve uma reportagem inteira. Por que existe um destaque para o Pierre e não se destaca os outros """""vândalos""""" que também participaram quebrando a Prefeitura de São Paulo em junho?

Fazendo uma varrição no Google, eis o que me aparece nas buscas relacionadas: o queridinho Diogo Mainardi praticando os mesmos atos que o Pierre - e sob os mesmos tipos de holofote. VISH MUITA TRETA!

Repito: não acredite em mim!

Teoria da Conspiração? Cheiro de caos? Nada. É só uma amostra do que virá em 2014 no que se refere à cobertura das manifestações. Porque protestos haverá, agora a gente só não sabe como vai ser. E cobertura midiática também, só que, igualmente, não dá para saber para que lado o chorume vai escorrer.

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

O ano em que o Brasil enxergou Minas. Ou melhor, CHUPA, MILTON NEVES!

Demorou, minha gente. Demorou. Minas Gerais pôde, enfim, ter um lugar ao sol no cenário futebolístico nacional. E isso só foi possível ao campeonato que cada grande time do estado alcançou este ano: a Libertadores do Atlético e o Brasileirão do Cruzeiro.

Eu digo isso porque, já tá mais que na cara, a nossa querida (pero no mucho) imprensa fica de olho somente nos grandes times cariocas e paulistanos. E foi de gozar de rir quando ouvi, na terça-feira (dia 14), o Milton Neves falando na Band News FM que o campeonato já não tinha mais graça e que "a TV estava perdendo audiência" com o Cruzeiro sendo campeão antecipadamente.

Meu caro Milton, pois é. Apesar de você se dizer mineiro de Muzambinho, o ranço de paulistano é o que predomina na sua alma. Foi com certa tristeza que ouvi você dizer, num dos seus comentários matutinos com o R. Boechat, que o Cruzeiro era "cavalo paraguaio". Com o perdão da palavra, mas vá à merda.



Vá à merda com o seu apego a somente dar crédito àquilo que interessa ao eixo. 

Vá à merda junto com a Renata Fan, que declarou a mesma coisa do Atlético na Libertadores.

Vá à merda com o Neto, aquele outro sacripanta ridículo, que só sabe comentar sobre o Corínthians e esquece que existe um Brasil para além de São Paulo.

Pitoniza, peguei você como Cristo, eu sei. Mas é só para que você expie e pague os pecados cometidos pelos seus colegas de futebolismo. Entenda que os tempos são outros. Não mais temos que reverenciar Muricy, Luxemburgo ou Abel Braga; está na hora de cedermos o espaço ao Cuca, ao Marcelo Oliveira e ao Wagner Mancini. 

Pois é, Milton Neves. Desculpa aí pelos xingos, pelas maledicências, mas você também provocou. Como bom atleticano que você diz ser (é, eu acredito), não esquece das origens não, tá? Reconheça que, com quatro rodadas de antecedência, o Cruzeiro sagrou-se mais uma vez campeão. E que isso não é a vitória de um time, no caso o time celeste; para mim, é a vitória de um Brasil invisibilizado contra um Brasil superexposto. 

2013 é o ano de Minas no Brasil. E que a hegemonia Rio-São Paulo fique apenas na história.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

A noite dos 105 anos. Ou, melhor dizendo, o Cuca merece.

Como disse uma amiga minha no Facebook, "narrativas épicas merecem coroação". E, sim, o Atlético merece ser coroado.

Porque tem como técnico um cara que custou acreditar em si mesmo - e só agora, somente agora, depois de ser vice-campeão da Libertadores pelo Fluminense, vice-campeão brasileiro com o Cruzeiro, vice-campeão brasileiro com o Atlético, só agora ele desvirginou. Somente agora conseguiu mostrar a que veio. Não, meus caros, não é o Vítor o nome da noite, mas Alexi Stival Beludo.

Dessa vez, o Cuca não cucou. Graças a ele, graças a todos.


Cuca é um técnico que, quem conhece do futebol sabe bem, tem seus desequilíbrios, suas faltas de fé, seus vacilos. Foi isso que não o deixou ter confiança suficiente para crer em si mesmo. Mas, graças ao Atlético, ao apoio e suporte incondicional que a torcida deu ao Cuca, ele botou fé. Acreditou que, diferentemente das outras vezes, ele não iria "cucar".

Eu fiquei "encucado" (no sentido de ficar me questionando) por que raios o Fluminense dispensou o Cuca quando ele foi vice da Libertadores; e por que raios, mesmo fazendo o excelente trabalho de colocar o Cruzeiro na Libertadores de 2011, ele foi demitido de lá. Faz-nos refletir até mesmo sobre o quanto nós confiamos no trabalho dos outros (mesmo com todos os erros e acertos) e em nosso próprio trabalho. Dava para ver que anteriormente o Cuca era emocional e psicologicamente desequilibrado. Porque ninguém botava fé nele. Daí, você até poderia realizar que a mistura entre um time que há muito não ganhava um título realmente expressivo (o último foi o Campeonato Brasileiro de 1971) com um técnico considerado pé-frio poderia dar merda. Deu merda, mas para os outros.

Que fique claro: o time do Atlético merece todas as palmas hoje, madrugada de 24 para 25 de julho de 2013. Merece o devido reconhecimento nacional de que foi, sim, o melhor time em campo na Libertadores. Que fez, sim, uma campanha surpreendente - esse é seu primeiro título internacional desde a Taça do Gelo, na década de 50. [UPDATE: Carlos Bolívia me lembrou dos dois títulos que o Atlético tem da Comebol em cima do Olímpia. A Libertadores, então, seria o quarto título internacional]. Mas o nome da noite é o Cuca. A imagem da noite, para mim, não será o Léo Silva vibrando com o último pênalti. Não será a entrega da taça. Mas aquele momento no qual Cuca, o técnico borra-calças, o desacreditado, o pé-frio, ao ter a certeza de que foi campeão da Libertadores, deita-se no gramado do Mineirão, numa espécie de oração muçulmana, um rito de passagem, uma devoção. Cuca foi devoto do pessimismo e da má-sorte, mas ele conseguiu se levantar e também poder dizer: eu acredito - em mim. Porque tem gente que acredita em mim. Então, eu vou acreditar em mim. Vocês acreditam? Então eu também acredito.

O homem da noite que consagrou o Atlético. Claro, teve ajuda de uns psicólogos, também... Complexo de inferioridade não sai da pessoa da noite para o dia.

E é assim que o Cuca passa de um líder que treme nas bases nos momentos decisivos para um combatente que vai ao front sem medo da batalha. E que consagra um time que tem 105 anos de importante história em Minas Gerais mas que, como Cuca, tinha complexo de vira-lata - mesmo tendo um galo como mascote. "O Atlético é sofrido, o Atlético é azarado. E eu também. Nós quebramos isso tudo", disse ele. E que bom que quebrou, Cuca.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Da escrotidão voluntária

Alex Teixeira era um cara de muitas posses. Rico, mesmo, daqueles que esbanjam dinheiro e prata por todos os buracos. Mas, assim como o dinheiro e a prata, Alex esbanjava outra coisa - essa, um tanto quanto mais nefasta e nociva.

Alex, administrador, trabalhou por um tempo como gerente numa fábrica num interior dessas Minas aí - não sei se era Piracema, Pitangui, Piranguinho, Potomaio... Sei lá, só sei que era uma grota; sabe, aqueles lugares onde Judas chegou para descansar porque perdeu as botas no meio do caminho? Pois é, mas o que sei é que era uma cidadezinha tão simpática, tão bonitinha... Dava dó ver uma pessoa como Alex frequentar um espaço como aquele - você vai entender o que quero dizer logo adiante: Alex é uma pessoa que contamina, no mau sentido.

Nesse interior, enquanto trabalhava de gerente da "firrrrma" (ah, o R puxado do interiorrr de Minas é tão bonito...), conheceu uma moça. Delicada e meiga, Rosa ficou interessada do rapaz assim que chegou à cidade. Um burburinho se fez quando Alex chegou - né por nada não, mas o cara era realmente bonito, sabe, meio Alain Delon com James Dean e Marlon Brando (ainda magro). Causou comoção a chegada dele, moças suspiravam, cochichavam o nome dele nas rodas, mas nenhuma tinha coragem o suficiente para chegar nele.

Rosa não fugiu à regra, e resolveu investir no rapaz. Foi investindo daqui, conversando com um amigo de lá, ouvindo conselhos da mãe até que um dia - TUFF!, os dois se encontraram. Começaram a se ver com frequência, passear, tomar sorvete - tudo, antes das 21 horas, porque o pai da Rosa, seu Irineu, era um daqueles matutos duros de dobrar. Nossa Senhora, ô homem difícil de lidar, gente! Não era dado à conversa, mas nunca maltratou ninguém que a gente saiba. O cabra pode ser turrão, mas mal educado? Jamais.

Rosa e Alex começaram a namorar. Noivaram. Casaram. E resolveram se mudar para Belo Horizonte, a capital. Vocês lembram que eu disse que Alex era um cara riquíssimo? Pois é, nos arredores dessa cidade aí onde ele conheceu a Rosa (ai, memória, funciona... era uma cidade indo lá para Araxá, qual que é o nome do diabo da cidade?), ele comprou, antes de casar, uma senhora fazenda. Grande. Imensa. Naquela época que eles casaram, a cana tava em alta, e ele resolveu aplicar os trocentos alqueires em cana. Mas bobo que ele não era, não ficou só na cana, não. Vai que desgasta a terra, né? Resolveu plantar milho e criar gado, também. Era um mar de cabeças de boi que ele tinha - e só boi do fino, só gado Nelore, só coisa de rico, mesmo. Vendia e comprava gado com uma facilidade tal como eu consigo comprar balas na padaria da esquina (quer dizer, antigamente era mais fácil, eram 3 balas por 10 centavos, agora com a crise... xiiii... por isso eu tive que ir às ruas em junho, só dá pra comprar bala agora com 20 centavos! Ó que absurdo...). Alex era rico, mas não era boa gente. Não mesmo.

Quando o Alex resolveu se mudar da cidade pequena para a roça grande, ele comprou um apartamento no metro quadrado mais caro de BH: o bairro de Lourdes, perto da Praça Marília de Dirceu. Ele tinha grana, né, queria impressionar... E comprou o dito cujo. E fez uma surpresa à Rosa, que ficou maravilhada ao ver o tamanho do apê. Ela, que estava acostumada aos pequenos muquifos, às casas pequenas, à humildade do interior, ficou embasbacada com aquilo. Foi o primeiro de muitos embabascamentos que se seguiriam.

Alex, como te disse, não era flor que se cheire - como a Rosa. Na fazenda, ele era conhecido entre os peões como "Alex Mão de Ferro", por causa da sua condução deveras intransigente das coisas que aconteciam no latifúndio. Teve uma vez (olha o naipe...) que aconteceu de ter aparecido um ladrão de gado lá pelas roças dele. E a fazenda dele serve de passagem para outras fazendas e roças menores do entorno. Você acredita que ele chegou a fechar a passagem do pessoal que vai pras outras fazendas com uma corrente, colocou um cadeado e não fez cópia pros outros fazendeiros? Gente, isso foi um tumulto na época! Dona Maria das Graças, fazendeira vizinha, ficou pê da vida e apelou com o Alex. Dona das Graças, uma vez, passava de noite voltando da cidade pra roça quando se deparou com o correntão lá bloqueando o seu caminho. Dona de um temperamento super apimentado e forte, das Graças emputecidamente foi até a sede da fazenda dele e começou a gritar, para todo mundo ouvir:

- SEU FILHO DA PUTA DESGRAÇADO! QUER ME DEIXAR FORA DE CASA, HOMEM PERTURBADO?

(Achei o termo "homem perturbado" bem adequado para definir o sujeito.)

Alex, naquele jeito dele de "eu sei que estou certo e fazendo as coisas que eu acredito serem as melhores sob o meu ponto de vista", explicou o motivo da corrente. E que não tinha feito a cópia porque a chave ficava não com ele, mas com o caseiro.

- Ah, dona das Graças, sabe como é, né?, eu sou muito ocupado e aí não tive como fazer a cópia. Dei lá a chave pro Lalau e falei pra ele guardar com ele.

- E pediu pra fazer cópia?

- Ah, pedi não, sabe, não acho prudente. Vai que qualquer um desatento perde a chave e aí eu fico vulnerável, sabe? Eu não posso ficar vulnerável, tem um tanto de gado aqui e já me roubaram um tanto que eu tenho que ficar cabreiro, sabe?

- Alex, eu preciso passar aqui para chegar lá nas minhas terras, o outro caminho é precário! Porra, vai amarrar uma chave?

- Uai, das Graças, eu tenho que proteger meu patrimônio...

- Melhor proteger a sua cara, que vou moer ela de porrada!

E partiu para cima.

Não era a primeira vez que Alex sofria (merecidamente, diga-se de passagem) algum tipo de agressão. Mesquinho demais com os outros, só pensava nas suas posses. Sua esposa, como eu tinha dito, era uma pessoa que era mais familiarizada com as pequenas coisas da vida - mas ficou muito magoada quando viu seu projeto de jardim na entrada da casa principal dar lugar a um insólito muro de alvenaria. Alex mudara a entrada da fazenda arbitrariamente e, como Rosa só frequentava a fazenda uma vez por mês, ficou indignada.

- Meu amor, mas cadê o jardim?

- Ah, Rosa, sabe?, eu tive que tirar o jardim porque a gente tava vulnerável, sabe, e eu não poderia deixar a casa exposta e...

- Vulnerável? Como, se o Lalau fica aqui na casa do lado sempre de olho... Lalau é de confiança, cê sabe disso...

- É, Rosa, mas nesse mundo não se pode dar brecha, né, tem que resgardar a nossa casa, que é o nosso investimento.

O sangue de Rosa talhou.

- Mas meu jardim...

E Alex atalhou:

- Seu jardim já era! Fiz o que eu tinha que fazer e pronto.

Rosa emudeceu. Passou todo o final de semana sem conseguir emitir uma palavra. Sua vida de simplicidades dava lugar à temeridade do resguardo das posses e domínios de Alex. Não conseguia ser feliz como antes.

Rosa murchara, perdera o brilho e o viço que a mantinham viva ao longo dos anos.

Alex queria filhos, mas a mágoa de Rosa foi tanta que um câncer se alojou entre o ovário e o útero. Deus sabe o que faz, né, já pensou que sacanagem o Alex ter filhos e ele criar desse jeito tão medonho?

O câncer avançou e se alastrou pelo abdome. Rosa tinha que ser submetida a um agressivo tratamento combinado de químio com rádio. Isso, além das vitaminas que tinha que tomar para recompor o organismo, dos corticoides para aliviar a dor, dos analgésicos, anestésicos e tudo o mais que a Medicina Ocidental provê.

Alex gastou boa parte do seu patrimônio, que ele tanto ficou de usura para proteger. Rosa não morreu, mas nunca mais foi Rosa - só sobraram os espinhos.

O resultado da história eu acho que dá pra vocês imaginarem, né?



segunda-feira, 8 de julho de 2013

Que horas são?

Todo dia, Daniel costumava fazer seu ritual habitual: acordava, tomava banho, escovava os dentes, tomava café, dava um beijo na esposa, pegava a valise com os papéis do escritório, pegava a chave do carro, dava a partida no carro, abria a garagem pelo portão eletrônico, saía do prédio, despedia-se do porteiro, fechava o portão, seguia ao trabalho.

Ele sempre estacionava num estacionamento próximo do trabalho. Já combinou com o cara de lá para pagar um mensal de 250,00 pela vaga. Chegava para trabalhar às 9h30, saía invariavelmente às 19h. Trabalhava em um escritório de contabilidade - ou seja, a parte mais chata quando você tem dinheiro. Várias declarações de imposto de renda já passaram pelas suas mãos. Vários clientes importantes já passaram pelo escritório onde trabalha, de sobrenome tão nobre quanto nome de cartório em Belo Horizonte. Porque em Beagá, saiba: se você tem cartório, é porque você é um fodão. Não é qualquer um que tem culhões suficientes para ter um cartório. Olha só o sobrenome: Triginelli; vê lá se isso é sobrenome de mortal? No mínimo, o sobrenome de um italiano que chegou ao Brasil e, às custas de seu trabalho (leia isso com duplo sentido), conseguiu ganhar alguma coisa na vida. Tem um rico empresário na cidade que é de origem italiana, tem lá seus amigos na política e conseguiu ficar mais rico do que já é graças ao seu trabalho (leia isso com duplo sentido). A empresa desse moço da Itália também tem conta no escritório de Daniel.

O escritório de Daniel ficava num imponente prédio espelhado de 25 andares na região centro-sul. Próximo à saída do prédio, sempre tinha um moço que ficava sentado na porta, contemplando sabe Deus o quê. Era um moço não muito velho, já devia ter seus quarenta anos, mas talvez a vida nas ruas tenha-lhe precocemente envelhecido o corpo. Porém, o espírito não caducara. Saía sempre à cata de algum material que pudesse encaminhar ao ferro velho e fazer uma graninha com ele. Sabe como é, colaborar em casa. A casa dele nada mais era do que a marquise de um prédio vizinho ao de Daniel; de praxe, ele costumava chegar perto da portaria e tentava abordar alguém. De praxe, sempre tinha um armário de dois-por-dois, também conhecido como "segurança", que barrava o contato dele com o mundo dos negócios do qual Daniel vivia.

E o segurança nunca deixava o moço se aproximar. Seja temendo que ele invadisse o prédio, seja porque achasse que ele não era uma pessoa que devesse frequentar aquele espaço.

Num dia desses, Daniel saiu da sua rotina. O carro foi pro conserto e resolveu ir de ônibus. Ao chegar perto do seu trabalho, sob a desproteção de um segurança que somente atua na portaria de um prédio cheio de executivos, o moço que está nas ruas abordou Daniel.

Daniel deu um sobressalto e logo já disse:

- Eu não tenho nada. Desculpa aí.

Um outro rapaz, que também trabalhava no mesmo prédio de Daniel - mas não no mesmo escritório; inclusive, ele tinha hábitos diferentes do de Daniel: sempre ia de ônibus, preferia quebrar a rotina às vezes, não tinha uma vida estanque - estava logo atrás dele. Foi igualmente abordado pelo moço da rua, e seguiu o mesmo "caminho" de Daniel":

- Desculpa, moço, mas eu não tenho.
- Mas não é isso. Quero saber se você tem horas.
- Como?
- Cê tem horas? Que horas são?
- Ah, são nove e quinze.
- OK. Obrigado.
- Só isso?
- É, só. Valeu.

Era só isso, pensou o rapaz abordado. E ele pensando que era outra coisa.